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Apupos

O que o plenário grita, palavra por palavra.

Inimigos íntimosSem ataque na tribuna

“De terroristas vocês entendem”

Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira, os dois do PL, disseram o nome um do outro em 11 discursos na tribuna, nenhuma vez para atacar. Em 2023, Eduardo reforçou as palavras de Nikolas; em 2025, Nikolas pôs Eduardo numa fila de “Era só...” em que o presidente da sessão interveio cinco vezes.

CrônicaRedação do Apuposdados até 14/07/2026

11discursos em que um disse o nome do outro na tribuna; nenhum para atacar

Um leitor encomendou ao Apupos “a relação entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas por meio de seus discursos ao longo do tempo”. Na seção dos inimigos íntimos, o par é o avesso. Em 303 discursos de plenário, Eduardo (PL-SP), que não disputou a eleição de 2026 e tem o mandato vago desde dezembro de 2025, disse o nome de Nikolas em seis; Nikolas (PL-MG), reeleito em outubro como o deputado federal mais votado de Minas, com 3.119.318 votos (abre em nova aba), o de Eduardo em cinco. Nenhum para atacar.

A defesa do dia seguinte

Câmara, 9 de março de 2023, fim das Breves Comunicações. Preside Pompeo de Mattos (PDT-RS), reeleito em outubro (abre em nova aba). Na véspera, a taquigrafia anotara na tribuna: “(O Deputado coloca uma peruca.)”. Eduardo sobe, celular na mão, e dá o veredito: “Aquele foi, provavelmente, o melhor discurso desta Casa neste ano.” E apela para que, no Conselho de Ética, “não condenem o Deputado Nikolas Ferreira pelo seu excelente discurso”.

O último inscrito, Lindbergh Farias (PT-RJ), reeleito em outubro, terceiro mais votado do Rio (abre em nova aba), começa pelo colega: “O Deputado Eduardo Bolsonaro acabou de falar em defesa do Deputado Nikolas Ferreira.” Para ele, o que houve na véspera “foi uma molecagem”, “um discurso transfóbico”, e o PT entra com “notícia-crime e também com uma representação no Conselho de Ética”. Em agosto, o Conselho de Ética arquivou o processo sobre o discurso.

O reforço

Em 26 de abril de 2023, sessão do Congresso. Preside Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que não disputou a eleição de 2026 e renunciou ao mandato de senador em 30 de setembro. O deputado anterior, segundo Nikolas, dissera que André Fernandes (PL-CE), reeleito como o mais votado do Ceará (abre em nova aba), por ser investigado no STF, não poderia compor a CPMI do 8 de janeiro. Nikolas responde do microfone da bancada: “Se for para levar em consideração investigação, 90% do PT não poderá compor a Comissão, até mesmo porque de terroristas vocês entendem.”

Logo depois, de outro microfone, Eduardo, líder da Minoria: “Gostaria de reforçar as palavras Deputado Nikolas, porque realmente o Cesare Battisti, esse sim, é uma referência de terrorista”. Mais adiante: “o PSOL é o partido de Adélio Bispo, que deu uma facada em Bolsonaro, e agora vem falar de violência? Aqui não! Aqui não!” Fernanda Melchionna (PSOL-RS), reeleita como a segunda mais votada do Rio Grande do Sul (abre em nova aba): “Mentira aqui, não, Eduardo!” Eduardo segue: “O Deputado André Fernandes tem o direito de participar, sim. Quem não tem direito de participar...” A taquigrafia anota (Soa a campainha.) Eduardo: “Presidente, a verdade tortura a Esquerda, eu sei.” Pacheco: “Peço que garantam o direito de fala da Liderança da Minoria.”

A fila de “Era só...”

Eduardo diz o nome de Nikolas pela última vez em setembro de 2023. Faz mais 22 discursos sem ele; o último, em fevereiro de 2025.

Em 18 de março de 2025, a Câmara discute um projeto sobre restos a pagar. Preside Charles Fernandes (PSD-BA), reeleito em outubro (abre em nova aba). Ao lado de Nikolas, um letreiro da TV explica que discussão é a fase “em que oradores inscritos discursam para falar contra ou a favor do texto”. Nikolas dedica três frases ao texto e começa: “seria simples resolver as coisas aqui no Brasil”. Vem uma fila de “Era só...”, um nome por vez, como “Era só a Michelle ter gastado mais de 100 milhões de dinheiro público, igual à Janja, que ela não estaria sendo perseguida e estaria tudo bem.” Charles interrompe: “Deputado Nikolas...” Chega a vez de Eduardo: “Era só o Eduardo ter colocado dinheiro na cueca, que não estaria correndo risco de perder o seu passaporte.”

Mais uma chamada, e a terceira vem com motivo: “é para discutir a matéria”. Nikolas: “Estão com medinho de opinião?” Perto do fim, pergunta: “Falar besteira, Presidente, é motivo para cassação?” E continua: “Então, você deveria estar preso, porque só fala besteira.” A taquigrafia anota três vezes (Aponta para o plenário.)

Depois

Em 10 de dezembro de 2025, Nikolas diz o nome de Eduardo pela última vez, ao afirmar que Jean Wyllys, hoje no PT, suplente de deputado federal por São Paulo (abre em nova aba), “cuspiu também na cara do Eduardo Bolsonaro”. Oito dias depois, o mandato de Eduardo fica vago. Em 2026, até 14 de julho, Nikolas fez seis discursos no plenário. O nome de Eduardo não está em nenhum.

Como fizemos

Contamos, nos discursos de plenário dos dois na API da Câmara, quem disse o nome de quem: 154 de Eduardo (2019 a 2025, baixados porque ele não está no acervo de candidatos de 2026) e 149 de Nikolas (2023 a 14 de julho de 2026). Lemos cada uma das 11 falas no texto oficial. As três cenas foram vistas no vídeo oficial da Câmara, nos pontos indicados nos links, e as falas entre aspas estão palavra por palavra no registro oficial (Diário da Câmara e Diário do Congresso).

O que não dá para afirmar

  • Por que Eduardo parou de dizer o nome de Nikolas depois de setembro de 2023, nem por que Nikolas não o cita em 2026: a tribuna não diz.
  • O que um pensa do outro fora do plenário: comissões, redes sociais e entrevistas ficaram de fora.
  • Por que tocou a campainha em 26 de abril de 2023: a taquigrafia anota a ordem, não a causa.

Fontes

  1. Câmara, 09/03/2023: a fala de Eduardo Bolsonaro (texto oficial) (abre em nova aba)
  2. Congresso, 26/04/2023: a fala de Nikolas Ferreira (texto oficial) (abre em nova aba)
  3. Congresso, 26/04/2023: a fala de Eduardo Bolsonaro (texto oficial) (abre em nova aba)
  4. Câmara, 18/03/2025: a fala de Nikolas Ferreira (texto oficial) (abre em nova aba)
  5. Câmara, 10/12/2025: a fala de Nikolas Ferreira (texto oficial) (abre em nova aba)
  6. Câmara dos Deputados, API de dados abertos: Eduardo Bolsonaro (situação: vacância) (abre em nova aba)

A rede

Tweets desta matéria

Um leitor pediu a relação entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira na tribuna. Em 303 discursos, um disse o nome do outro em 11. Nenhum para atacar.

Câmara, discursos de 2019 a 2026174/280

Congresso, 26/04/2023. Nikolas Ferreira: “Se for para levar em consideração investigação, 90% do PT não poderá compor a Comissão, até mesmo porque de terroristas vocês entendem.” Eduardo Bolsonaro: “Gostaria de reforçar as palavras Deputado Nikolas”.

Congresso, 26/04/2023, 14h40274/280

Eduardo Bolsonaro, no dia seguinte ao discurso da peruca de Nikolas Ferreira: “Aquele foi, provavelmente, o melhor discurso desta Casa neste ano.”

Câmara, 09/03/2023, 14h48170/280

As marcas desta crônica

Cada marca da taquigrafia citada aqui tem página: quantas vezes o plenário a ouviu e as outras peças que a citam.

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