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Apupos

O que o plenário grita, palavra por palavra.

Sessões atípicasLiderança da Oposição

“Não à rachadinha!” x “Coloque uma melancia na cabeça”

Câmara, 9 de julho de 2025: o deputado do PL subiu para falar da tarifa de 50%, foi interrompido, passou a falar de André Janones, esperou o cronômetro correr e teve o som cortado no meio de “você vai ser esquecido”. Enquanto isso, a votação dos 40 cargos do STF seguia aberta.

Redação do Apuposdados até 09/07/2025

3:23no cronômetro da tribuna enquanto Nikolas dizia que ia “aguardar”

Quarta-feira, 9 de julho de 2025, 19h, Câmara dos Deputados. Está aberta a votação de um destaque sobre a criação de 40 cargos de agente da Polícia Judicial no Supremo. Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado federal mais votado de Minas em 2026, com 3.119.318 votos, sobe pela Liderança da Oposição: “A grande pergunta da noite é: de quem é a culpa pela tarifa de 50% aplicada pelos Estados Unidos ao Brasil?” E avisa: “Eu vou ler a carta do Trump. É muito mais fácil.”

Pouco mais de três minutos depois, no meio de “Quando nós estamos...”, a taquigrafia anota um coro: “Não à rachadinha! Não à rachadinha! Não à rachadinha!” Rachadinha é a devolução de parte do salário de assessores ao parlamentar, na definição do STF. Depois, outro coro: “Flávio Bolsonaro! Flávio Bolsonaro! Flávio Bolsonaro!” É o nome do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL a presidente em 2026, cuja denúncia de rachadinha a Justiça do Rio arquivou em 2022, a pedido do próprio Ministério Público, depois que o STJ anulou as decisões que a sustentavam; o tribunal disse que isso não impede novas investigações.

Na TV Câmara, o narrador entra por cima do som e diz a quem assiste em casa que “a decisão do presidente Donald Trump em relação ao Brasil de taxação acaba repercutindo no plenário”. A primeira imagem do corredor mostra uma roda de deputados de pé e dezenas de celulares erguidos.

Quando ele volta, a carta ficou para depois:

Eu acho que existe algo que une a Esquerda e a Direita: ninguém gosta do Deputado Janones. Eu acho que isso é unânime, está certo?

Nikolas FerreiraPL-MGCâmara, 19h05Ver no registro oficial (abre em nova aba)Logo depois do coro “Não à rachadinha!”, que interrompeu a leitura da carta de Trump.

André Janones (Avante-MG), reeleito em 2026, já pela Rede, é deputado mineiro, como Nikolas. Em março de 2025, o ministro Luiz Fux homologou no STF o acordo de não persecução penal em que, segundo o tribunal, Janones admitiu a rachadinha em seu gabinete. Nikolas pede à esquerda “que tome conta dessa pessoa que está rachando a nossa sessão plenária aqui”. A taquigrafia escreve (Tumulto no plenário.) Nikolas: “Eu vou aguardar até haver um pouco de bom senso e de respeito.” Enquanto ele aguarda, o cronômetro da tribuna desce de 3:49 a 3:23. O presidente, Hugo Motta (Republicanos-PB), reeleito em 2026 como o 5º mais votado da Paraíba, toca a campainha: “Eu peço à Polícia Legislativa que garanta a ordem no plenário.”

“Perdoe-me, mas a culpa não é minha. A culpa não é minha”, diz Nikolas, e empurra o microfone para o lado. Na volta, pede “uma salva de palmas para quem comete rachadinha, que é o Deputado Janones”. Ele acrescenta: “Coloque uma melancia na cabeça. Talvez assim você apareça mais.”

Mais adiante, de novo a Janones: “Deputado Janones, você vai ser esquecido no nosso Brasil...” A taquigrafia escreve (Desligamento do microfone.) Motta lhe dá mais um minuto.

O que o registro não traz é Janones: o Diário não anota nenhuma palavra dele na sessão, e a câmera não mostra o que ele fez. Quem liga o coro a ele é Nikolas.

Às 19h12, a votação que ficou aberta o tempo todo termina: “SIM: 210; NÃO: 174. ESTÁ MANTIDO O TEXTO.” Os 40 cargos ficam no texto. Na tribuna, nos doze minutos anteriores, ninguém tinha falado deles.

Como fizemos

Lemos a sessão no Diário da Câmara de 10 de julho de 2025, da abertura ao fim, e assistimos ao vídeo oficial da TV Câmara do trecho, quadro a quadro, com o áudio transcrito. As falas entre aspas estão palavra por palavra no Diário; a do narrador está no áudio da transmissão. A roda, os celulares, o cronômetro e o microfone empurrado são o que o vídeo mostra, no ponto indicado nos links. A situação dos dois casos de rachadinha vem das notícias do STF e da Agência Brasil linkadas no texto.

O que não dá para afirmar

  • Quem puxou os coros, nem o que Janones fez ou disse no plenário: o Diário não registra nenhuma palavra dele, e a câmera só mostra o plenário 27 segundos depois do primeiro coro.
  • Que o microfone tenha sido cortado de propósito ou pelo relógio: a conta do cronômetro bate, mas o registro diz só “desligamento”.
  • Que a Polícia Legislativa tenha agido: o presidente pediu; as imagens não mostram o que veio depois.

Fontes

  1. Diário da Câmara, 10/07/2025, p. 163: a carta de Trump e os coros (abre em nova aba)
  2. Diário da Câmara, 10/07/2025, p. 164: “ninguém gosta do Deputado Janones” e a Polícia Legislativa (abre em nova aba)
  3. Diário da Câmara, 10/07/2025, p. 165–166: as palmas, a melancia e o microfone (abre em nova aba)
  4. Diário da Câmara, 10/07/2025, p. 167: o resultado da votação (abre em nova aba)
  5. Vídeo oficial da sessão (TV Câmara, YouTube), o coro (abre em nova aba)
  6. STF, 19/03/2025: homologação do acordo de André Janones com a PGR (INQ 4949) (abre em nova aba)
  7. Agência Brasil, maio de 2022: Justiça do Rio arquiva a denúncia contra Flávio Bolsonaro (abre em nova aba)

A rede

Tweets desta matéria

Câmara, 9/7/2025. Nikolas Ferreira sobe para ler a carta de Trump sobre a tarifa de 50%: “Eu vou ler a carta do Trump. É muito mais fácil.” No meio de “Quando nós estamos...”, a taquigrafia anota o coro: “Não à rachadinha!”

Câmara, 09/07/2025, 19h04247/280

Enquanto a taquigrafia anotava tumulto, o narrador da TV Câmara dizia a quem via de casa que “a decisão do presidente Donald Trump em relação ao Brasil de taxação acaba repercutindo no plenário”.

TV Câmara, 09/07/2025, 19h05219/280

As marcas desta matéria

Cada marca da taquigrafia citada aqui tem página: quantas vezes o plenário a ouviu e as outras peças que a citam.

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