Contradições estranhasNão vou dizer
“Não vamos dizer que é idiota, não” x “Um Presidente cachaceiro [...] não vou nem falar”
Em 43 falas da Câmara e do Senado o orador avisa que não vai dizer uma palavra ou um nome; em 40, o insulto fica escrito logo ali, no registro oficial. O aviso vem dos dois lados: 22 de direita, 18 de esquerda, 3 de centro.
40vezes em que o orador avisou que não ia dizer uma palavra ou um nome, e o insulto ficou escrito no registro (de 43 avisos)
Na tribuna do Congresso, o orador avisa que não vai dizer uma palavra, ou um nome, e diz. Das 43 vezes em que o Apupos achou e confirmou o aviso, em 40 o insulto está escrito ali perto, logo antes ou logo depois do aviso. A taquigrafia, que registra oficialmente cada palavra dita em plenário, anota as duas coisas: o aviso e a palavra.
A busca foi nas notas taquigráficas da Câmara (2019 a 2026) e do Senado (2011 a 2026) que estão no acervo da casa. Um filtro automático separou 163 candidatos: “não vou dizer”, “não posso chamar”, “não vou citar”, com um insulto por perto. O veredito não é do filtro: cada candidato foi lido, um a um, pela mesa de pesquisa. Ficaram 43.
Um presidente, outro presidente
Em 19/10/2022, Luizianne Lins (PT-CE) fala de Jair Bolsonaro, então presidente. Em 23/03/2023, Coronel Chrisóstomo (PL-RO) fala de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do dia. O aviso é o mesmo.
Não vou dizer, e diz
Bolsonaro é a negação de tudo isso, com as suas grosserias, com a sua falta de empatia, com a sua crueldade, com a sua forma truculenta de tratar as políticas. Chega a ser cruel. Não vamos dizer que é idiota, não,
Afinal de contas, que pena o Brasil ter um Presidente nessa situação. Isso nos envergonha. Um Presidente cachaceiro, um Presidente que faz xixi na calça [...] não vou nem falar. V.Exas. não se vergonham, não, de ter um Presidente desses?
O aviso dos dois lados
O gesto aparece nos dois campos. Das 43 preterições confirmadas, 22 são de deputados e senadores de partidos de direita na data, 18 de esquerda e 3 de centro. Ao todo, 22 oradores diferentes fizeram o gesto.
Quem avisa que não vai dizer, por campo do partido na data
Ver dados
| Quem | Falas | Nota |
|---|---|---|
| Direita | 22 | 15 na Câmara, 7 no Senado |
| Esquerda | 18 | 9 delas de Paulo Paim, no Senado |
| Centro | 3 | 1 na Câmara, 2 no Senado |
Fonte: Notas taquigráficas no acervo, Câmara 2019–2026 e Senado 2011–2026; 163 candidatos do filtro lidos um a um, 43 confirmados.
Em 21/12/2023, André Fernandes (PL-CE) reclamou da notícia de que deputados seriam punidos por chamar “ladrão de ladrão”. Na frase em que diz que não pode, “bandido” aparece 2 vezes.
Já saiu matéria de que Deputados que estavam aqui chamando ladrão de ladrão vão ser punidos. (Palmas.) [...] Não posso chamar bandido de bandido, mas pode um Deputado da Esquerda "encoxar" uma mulher, assediar uma mulher, dar tapa na cara, cuspir na cara. Eles podem tudo! (Palmas.)
Na direita, quem mais avisa é Coronel Chrisóstomo (PL-RO), com 4, na Câmara, e Magno Malta (abre em nova aba), com 4, no Senado (PR-ES no cabeçalho das mais antigas, PL-ES depois).
Quem mais avisa que não vai dizer
Ver dados
| Quem | Falas | Nota |
|---|---|---|
| Paulo Paim (PT-RS) | 9 | Senado |
| Coronel Chrisóstomo (PL-RO) | 4 | Câmara |
| Magno Malta (PR/PL-ES) | 4 | Senado |
| Cleitinho (REPUBLICANOS-MG) | 3 | Senado |
Fonte: Preterições confirmadas na leitura; partido do cabeçalho na data; no acervo, Câmara 2019–2026 e Senado 2011–2026 (janelas diferentes).
O senador que avisa mais
A conta da esquerda tem um nome. Paulo Paim (abre em nova aba) (PT-RS) responde por 9 das 18 preterições de esquerda, todas no Senado, e é a única esquerda do Senado nesta lista. Sem ele, a esquerda tem 9 e a direita, 22. Na Câmara, são 9 de esquerda e 15 de direita.
Em 18/04/2016, ele diz que não vai repetir os palavrões do debate na Câmara. Na frase seguinte, diz que vai lembrar o que foi dito: “canalha”, “ladrão”.
Nós viramos chacota em âmbito internacional pelo nível do debate: cantando, berrando, cantando, dizendo palavrões que eu não vou aqui repetir. Quem presidia era chamado - eu vou dizer, vou lembrar o que foi dito - de canalha, de ladrão para cima, por mais de 30 vezes, contei.
Em 05/10/2015, o aviso vem com a troca: ele diz a palavra que não vai usar e, na mesma frase, a que usa no lugar.
Eu não vou dizer que é coragem, vou dizer que é covardia. Tem que ser muito covarde para votar favoravelmente, aqui no plenário, a uma posição dessa, revogando um direito dos mais pobres, que são os assalariados brasileiros.
A palavra “canalhas” aparece nos dois lados do Senado, cada uma com o seu aviso: Paim, em 28/04/2017, diz que não vai usar o termo de Tancredo Neves; Cleitinho (abre em nova aba) (REPUBLICANOS-MG), em 03/09/2025, diz que não vai citar o nome “desses canalhas”.
“Canalhas”, com aviso
Não vou usar o termo que usou aqui Tancredo Neves, mas, se ele estivesse lá na Câmara, porque é lá que está o maior banditismo, diria o seguinte: "Canalhas! Canalhas!" Seria essa a frase, para mim, que Tancredo usaria aqui.
E quantos políticos que roubaram ou desviaram dinheiro público da saúde, da educação, da infraestrutura que estão à solta e falam que vão vir candidato no ano que vem? E eu não vou citar o nome desses canalhas, não, sabe por quê? Porque amanhã vem Comissão de Ética para mim, amanhã vem processo para mim.
Das 43 vezes em que o orador avisou que não ia dizer, em 40 a palavra ficou no registro oficial, ao lado do aviso. Nas outras 3, não ficou.
Como fizemos
Filtro automático, sem modelo de linguagem, sobre as notas taquigráficas da Câmara (2019–2026, com hora de início da fala) e do Senado (2011–2026, sem hora) do acervo: “não vou / não posso / não direi / não quero” + chamar, dizer, usar, citar, nomear, repetir…, com uma palavra de um léxico de insulto ou acusação por perto. Saíram 163 candidatos a preterição.
O veredito de cada caso é leitura: os 163 candidatos foram lidos um a um pela mesa de pesquisa do Apupos; ficaram 43. Sozinho, o filtro acerta 26% deles. O veredito e a nota de cada caso estão no script do cálculo.
“O insulto ficou escrito” quer dizer que a palavra está no texto logo antes ou logo depois do aviso, às vezes na mesma frase, às vezes uma ou duas frases adiante ou atrás.
Quem fala é o último cabeçalho “O SR./A SRA. NOME (PARTIDO - UF)” antes do trecho, não o dono do arquivo; o partido é o do cabeçalho, na data. O campo (esquerda, centro, direita) segue a tabela de partidos do Aparte. A mesma sessão repetida em arquivos diferentes conta uma vez.
Cada fala desta página foi conferida, letra por letra (só os espaços normalizados), contra o texto oficial no acervo; o corte está marcado com [...]. O resumo oficial é o que a Câmara escreve sobre cada discurso.
O que não dá para afirmar
- “Idiota”, “cachaceiro”, “bandido”, “ladrão”, “canalhas”, “encoxar”, “assediar”, “dar tapa na cara”, “cuspir na cara”, “o maior banditismo”, “roubaram ou desviaram dinheiro público”: é afirmação de quem falou. A seção não verifica cada afirmação, e o acervo não traz decisão oficial sobre elas.
- Não é a contagem de todas as preterições do Congresso: é piso. Aviso fora da lista de verbos e fala de quem não está no acervo ficam de fora.
- Não mede quem xinga mais; conta o gesto de avisar. A distância entre os campos depende de um senador: com Paulo Paim, 18 de esquerda e 22 de direita; sem ele, 9 e 22.
Fontes
- Luizianne Lins, Câmara, 19/10/2022, 10h28 (abre em nova aba)
- Coronel Chrisóstomo, Câmara, 23/03/2023, 11h12 (abre em nova aba)
- André Fernandes, Câmara, 21/12/2023, 20h12 (abre em nova aba)
- Paulo Paim, Senado, 05/10/2015 (abre em nova aba)
- Paulo Paim, Senado, 18/04/2016 (abre em nova aba)
- Paulo Paim, Senado, 28/04/2017 (abre em nova aba)
- Cleitinho, Senado, 03/09/2025 (abre em nova aba)
A rede
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Tweets desta matéria
Senado, 18/04/2016. Paulo Paim (PT-RS), sobre o que diz ter ouvido no debate da Câmara: “dizendo palavrões que eu não vou aqui repetir. Quem presidia era chamado - eu vou dizer, vou lembrar o que foi dito - de canalha, de ladrão para cima [...]”
www25.senado.leg.br/web/atividade/pronunciamentos/-/p/texto/421867 (abre em nova aba)
Câmara, 19/10/2022. Luizianne Lins (PT-CE), sobre Bolsonaro: “Não vamos dizer que é idiota, não, porque idiotice é muito pouco.” 23/03/2023, Coronel Chrisóstomo (PL-RO), sobre Lula: “Um Presidente cachaceiro [...] não vou nem falar.”
Em 43 falas do Congresso, o orador avisa que não vai dizer uma palavra; em 40, o insulto fica no registro. Cleitinho (REPUBLICANOS-MG), Senado: “eu não vou citar o nome desses canalhas, não, sabe por quê? Porque amanhã vem Comissão de Ética para mim”
www25.senado.leg.br/web/atividade/pronunciamentos/-/p/texto/516323 (abre em nova aba)
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